Um desleixo?!

Já tem um bom tempo que não venho aqui postar algo… Mas isso é intencional. Na verdade estou agora, digamos, só dando satisfações. É que esta aventura já demorou muito e está na hora de chegar ao seu final. Como não foi possível ainda finalizar o “doc”, resolvi não mais postar coisa alguma…e fazer isso só depois de terminar. Como dizem algumas pessoas, estou em uma fase que não suporto mais a tese e acho que também ela não me suporta mais! Assim, como observou um colega comportamentalista, terei que seguir a partir do reforço negativo – já que algo que me incomoda e que preciso me desvencilhar.

Espero este ano poder voltar aqui e trazer boas novas… Vamos ver.

Um grande abraço a todos que, por vezes, acompanhou esta aventura doutoral.

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El matador

Ser disciplinado implica saber administrar as frustrações. Isto significa dizer que para que haja disciplina, ações focadas e regulares (ritmadas, cadenciadas…) é importante que o sujeito consiga adiar algumas satisfações ou que saiba priorizar alguns interesses. Como eu sou um cara que posso me considerar como disperso, este exercício (de ser disciplinado, focado) não é fácil. Considero-me muito mais como um cara de criação… Tenho para mim que este doutorado (e justamente por estar sendo de longo prazo passa a ter essa característica muito mais acentuada) representa também um esforço e uma aprendizagem pessoal. Por vezes me pego interessado em fazer várias coisas. Minha cabeça não para e meus desejos pululam. Acho que isto tem a ver com a fome. Desde pequeno (minha mãe dizia) fui guloso. Soube que uma vez, quando havia 2 anos, comi quase uma dúzia de bananas (não sei se foi conversa de “mãe coruja”). A verdade é que sinto-me impulsionado a fazer várias coisas ao mesmo tempo… Por exemplo: nunca leio um livro apenas por vez… sempre estou envolvido em mil e um projetos… Mas isto tudo tento frear. Estou tendo, diria, que matar algumas dessas “figuras” que pululam em mim. Estou me transformando em uma espécie de “el matador”de mim mesmo. Será?! Bem, o que posso dizer é que não é fácil e faço um esforço danado para voltar minha atenção e energia as coisas do “doc”… ou quase… As vezes erro (de propósito) o tiro, pelo menos quando resolvo escrever algumas destas bobagens aqui no blog.

Jua, 02 de maio de 2011.

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UM DIA A COBRA VAI FUMAR. FIQUEM LIGADOS!

Vocês já ouviram falar no ditado “de que a mentira tem pernas curtas?” ou “não deixe de fazer hoje o que pode fazer amanhã”? Bem, isto também acontece na pesquisa e mais especificamente no percurso doutoral. Por que falo isso? Atualmente, encontro algumas dificuldades em refinar a minha análise (embora já desenvolvida, avalio que carece de um melhor refinamento) e isto tem a ver com certa limitação presente desde o início. Explico melhor a vocês. Ao ter contato com algum relatório ou artigo fruto de uma pesquisa, eu “pulava” a parte da análise. Sempre a considerava chata. Gostava mais da parte teórica e da conclusão. Ao longo da minha formação não trabalhei adequadamente meu know-how referente a análise. Resultado: em algum momento essa limitação apareceu e veio “cobrar os seus direitos”. Recomendo, portanto, a todos que estão nessa “barca” que fiquem “ligados” às suas limitações e não coloquem a “poeira embaixo do tapete”. Procurem reconhecer suas limitações e trabalhem com afinco sem achar que é possível tapear a si mesmo e ao projeto.

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Como escrever a tese certa e vencer

Por José Murilo de Carvalho

Ter que fazer uma tese de doutoramento na incerteza de como será recebida e na insegurança quanto ao futuro da carreira é experiência traumática. Quando passei por ela, gostaria de ter tido alguma ajuda. É esta ajuda que ofereço hoje, após 30 anos de carreira, a um hipotético doutorando, ou doutoranda, sobretudo das áreas de humanidades e ciências sociais. Ela não vai garantir êxito, mas pode ajudar a descobrir o caminho das pedras.

Dois pontos importantes na feitura da tese são as citações e o vocabulário. Você será identificado, classificado e avaliado de acordo com os autores que citar e a terminologia que usar. Se citar os autores e usar os termos corretos, estará a meio caminho do clube. Caso contrário, ficará de fora à espera de uma eventual mudança de cânone, que pode vir tarde demais. Começo com os autores. A regra no Brasil foi e continua sendo: cite sempre e abundantemente para mostrar erudição. Mas, atenção, não cite qualquer um. É preciso identificar os autores do momento. Eles serão sempre estrangeiros. Atualmente, a preferência é para franceses, alemães e ingleses, nesta ordem. Cito alguns, lembrando que a lista é fluida. Entre os franceses, estão no alto Chartier, Ricoeur, Lacan, Derrida, Deleuze, Lefort. Foucault e Bourdieu ainda podem ser citados com proveito. Quem se lembrar de Althusser e Poulantzas, no entanto, estará vinte anos atrasado, cheirará a naftalina. Se for para citar um marxista, só o velho Gramsci, que resiste bravamente, ou o norte-americano F. Jameson. Entre os alemães, Nietzsche voltou com força. Auerbach e Benjamin, na teoria literária, e Norbert Elias, em sociologia e história, são citação obrigatória. Sociólogos e cientistas políticos não devem esquecer Habermas. Dentre os ingleses, Hobsbawm, P. Burke e Giddens darão boa impressão. Autores norte-americanos estão em alta. Em ciência política, são indispensáveis. Robert Dahl ainda é aposta segura, Rorty e Rawls continuam no topo. Em antropologia, C. Geertz pega muito bem, o mesmo para R. Darnton e Hayden White em história. Não perca tempo com latino-americanos (ou africanos, asiáticos, etc.). Você conseguirá apenas parecer um tanto exótico. Da Península

1Ibérica, só Boaventura de Souza Santos, e para a turma de direito. Brasileiros não ajudarão muito mas também não causarão estrago, se bem escolhidos. Um autor brasileiro, no entanto, nunca poderá faltar: seu orientador ou orientadora. Ignorá-lo é pecado capital. Você poderá ser aprovado na defesa da tese mas não terá seu apoio para negociar a publicação dela e muito menos a orelha assinada por ele, ou ela. Se o orientador ou orientadora não publicou nada, não desanime. Mencione uma aula, uma conferência, qualquer coisa.

O vocabulário é a outra peça chave. Uma palavra correta e você será logo bem visto. Uma palavra errada e você será esnobado. Como no caso dos autores, no entanto, é preciso descobrir os termos do dia. No momento, não importa qual seja o tema de sua tese, procure encaixar em seu texto uma ou mais das seguintes palavras: olhar (as pessoas não vêem, opinam, comentam, analisam: elas lançam um olhar); descentrar (descentre sobretudo o Estado e o sujeito); desconstruir (desconstrua tudo); resgate (resgate também tudo o que for possível, história, memória, cultura, deus e o diabo, mesmo que seja para desconstruir depois); polissêmico (nada de ‘mono’); outro, diferença, alteridade (é a diferença erudita), multiculturalismo (isto é básico: tudo é diferença, fragmente tudo, se não conseguir juntar depois, melhor); discurso, fala, escrita, dicção (os autores teóricos produzem discurso, historiadores fazem escrita, poetas têm dicção); imaginário (tudo é imaginado, inclusive a imaginação); cotidiano (você fará sucesso se escolher como objeto de estudo algum aspecto novo do cotidiano, por exemplo, a história da depilação feminina); etnia e gênero (essenciais para ficar bem com afro-brasileiros e mulheres); povos (sempre no plural, “os povos da floresta”, “os povos da rua”, no singular caiu de moda, lembra o populismo dos anos 60, só o Brizola usa); cidadania (personifique-a: a cidadania fez isso ou aquilo, reivindicou, etc.). Para maior efeito, tente combinar duas ou mais dessas palavras. Resgate a diferença. Melhor ainda: resgate o olhar do outro. Atinja a perfeição: desconstrua, com novo olhar, os discursos negadores do multiculturalismo. E assim por diante.

Como no caso dos autores, certas palavras comprometem. Você parecerá démodé se falar em classe social, modo de produção, infra-estrutura, camponês, burguesia, nacionalismo. Em história, se mencionar descrição, fato, verdade, pode encomendar a alma.

Além dos autores e do vocabulário, é preciso ainda aprender a escrever como um intelectual acadêmico (note que acadêmico não se refere mais à Academia Brasileira de Letras, mas à universidade). Sobretudo, não deixe que seu estilo se confunda com o de jornalistas ou outros leigos. Você deve transmitir a impressão de profundidade, isto é, não pode ser entendido por qualquer leitor. Há três regras básicas que formulo com a ajuda do editor S.T. Williamson. Primeira: nunca use uma palavra curta se puder substituí-la por outra maior: não é ‘crítica’, mas ‘criticismo’. Segunda: nunca use só uma palavra se puder usar duas ou mais: ‘é provável’ deve ser substituído por ‘a evidência disponível sugere não ser improvável’. Terceira: nunca diga de maneira simples o que pode ser dito de maneira complexa. Você não passará de um mero jornalista se disser: ‘os mendigos devem ter seus direitos respeitados’. Mas se revelará um autêntico cientista social se escrever: ‘o discurso multicultural, com ser desconstrutor da exclusão, postula o resgate da cidadania dos povos da rua’.

Boa sorte.

(Publicado em O Globo com o título “Como escrever a tese certa e vencer”, em 16/12/1999, 7).

 

 

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Ação contínua

Outro dia estava a dividir minhas angústias com um colega do meu colegiado que também faz doutorado.  Em um dado momento ele elaborou algumas conclusões sobre sua experiência doutoral. Dentre elas, ele dizia que “não importa se você tem 1, 2, 4 ou 7 anos anos de doutorado, você termina mesmo nos últimos 6 meses!”. Concordo totalmente com ele! Acrescento ainda que a única forma de sair ou melhor, de terminar o doutorado, é trabalhar duro e de modo concentrado. Não adianta dar um pique e depois parar. Tem que ter continuidade, constância e ritmo. Tem que agir todos os dias, tem que haver ação… O discurso “de que vou terminar, de que vou escrever, de que vou achar tempo…”, tudo isso de nada adianta se não houver ação! É no dia a dia do trabalho, por mais que seja cansativo, saturante, angustiante e devagar, que doutorando sairá vitorioso e concluirá sua tese. Não há outra alternativa. Há que se trabalhar todos os dias…

 

Em alguma parte entre a realidade compartilhada com as pessoas e a outra da minha tese

 

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Quando desci do cavalo

Parece que mantenho um traço que já faz tempo. Percebo que, vez por outra, oscilo entre o que chamo de lado “vite” (que corresponde ao ímpeto, ao impulso, a pressa e a intensidade) e o lado “lentus” (que diz respeito ao letárgico, ao disperso, a descrença, a entrega e ao cansaço). Vejo que durante esse tempo do doutorado estive variando por esses dois polos. As vezes dava um pique incrível e trabalhava loucamente, achando que assim iria finalizar o capítulo A ou B, mas logo em seguida caia no esquecimento. Era como se fosse uma efêmera bola de sabão que desaparece depois que cintila alguns brevíssimos momentos de sua existência. Vivi recentemente essa “bola de sabão” quando, no começo de 2011 fui para o Québec. Encarnava o meu lado “vite” e acreditava em fechar o doutorado, depositando minha tese no final de abril. Estava furiosamente, intempestivamente decidido a dar conta de tudo. Debate-me muito! Foi uma verdadeira luta comigo mesmo. Sofri ao encarar a “real”. Pela primeira vez tive clara consciência de que não iria terminar o doutorado em um zip-zap. Minha tomada de consciência valeu um outro doutorado. Não podia seguir adiante variando entre o “vite” o “lentus”. Como disse minha orientadora, eu tive que descer do cavalo e entender que a única maneira de terminar o “doc” seria manter o equilíbrio dos dois polos e aplicar minha energia de forma contínua e ritmada. Em alguma parte entre a primavera do norte e o outono do sul.

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Língua – doce língua

Que saudade da minha terra!

Lugar que não se define em si

Casa que é muito mais o invólucro

Aconchego da língua

Recanto de tranquilidade

 

Músicas de um português brasileiro

Falado por qualquer um

Sons, cantos, palavras…

Berço do meu pensamento

Seio quente que alimenta

 

Doce lar

Doce língua

Afago do falar/pensar

Beijo brasileiro

Igual não há

 

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